Por que dividir o salário por 160 horas é uma cilada

A conta que quase todo freelancer faz no começo é a mesma: "eu queria ganhar uns R$ 6.000 por mês, o mês tem umas 160 horas úteis, então minha hora vale R$ 37,50". Parece lógico. E é justamente por parecer lógico que essa conta derruba tanta gente.

O problema é que ela junta dois erros graves em uma linha só. Primeiro, assume que todas as horas do mês são vendáveis — o que nunca é verdade. Segundo, trata o valor que você quer receber como se fosse o valor que precisa faturar, ignorando tudo que sai antes de o dinheiro chegar na sua conta. Cada um desses erros empurra seu preço para baixo. Juntos, eles fazem você trabalhar o mês inteiro para descobrir que sobrou menos do que ganharia registrado.

Horas faturáveis não são horas trabalhadas

Quem é CLT vende 8 horas por dia e recebe pelas 8, faça o que fizer nelas. O freelancer só recebe pelas horas que consegue cobrar de um cliente. E boa parte do seu dia simplesmente não é cobrável de ninguém:

  • Prospecção: procurar clientes, responder mensagens, marcar reuniões;
  • Propostas e orçamentos que muitas vezes nem viram contrato;
  • E-mail, administração, emissão de nota, cobrança de quem atrasou;
  • Estudo e atualização para não ficar obsoleto;
  • Pausas — porque ninguém produz 8 horas cheias sem parar.

Na prática, um dia de trabalho honesto rende de 5 a 6 horas realmente faturáveis, não 8. Se você calcular seu preço fingindo que vende 8, está entregando 2 a 3 horas por dia de graça. É por isso que a calculadora pede as horas faturáveis por dia, e não a jornada total: o denominador certo é menor, e um denominador menor levanta o valor da sua hora.

Do líquido ao bruto: o que sai antes de sobrar

O segundo ajuste é entender que existe uma diferença enorme entre o que você quer levar para casa (o líquido) e o que precisa cobrar do cliente (o bruto). Entre um e outro mora tudo que consome o seu faturamento:

  • Impostos do seu regime — Simples, MEI ou PJ, cada um com sua carga;
  • Ferramentas, softwares, assinaturas e equipamento;
  • Contador e custos administrativos;
  • Uma folga para férias, feriados, doença e meses fracos — ninguém fatura 100% dos meses.

A calculadora resolve isso invertendo a conta. Em vez de tirar os custos depois, ela pergunta quanto você quer líquido e qual a fatia estimada de custos, e devolve o faturamento bruto necessário: bruto = líquido ÷ (1 − custos%). Só então divide esse bruto pelas horas que você realmente vende.

Um exemplo do começo ao fim

Digamos que você queira R$ 6.000 líquidos por mês e estime 25% entre impostos e custos. O faturamento bruto vira 6.000 ÷ 0,75 = R$ 8.000. Se você trabalha 22 dias úteis com 6 horas faturáveis por dia, são 132 horas vendáveis no mês. Logo, sua hora mínima é 8.000 ÷ 132 = R$ 60,60 — e sua diária, 8.000 ÷ 22 = R$ 363,63. Bem longe dos R$ 37,50 da conta ingênua.

Repare no salto: o mesmo objetivo de R$ 6.000 saiu de R$ 37,50 para R$ 60,60 a hora só por corrigir os dois erros. Não foi ganância — foi parar de subsidiar o próprio trabalho. Você pode rodar seus números na calculadora de valor da hora do freelancer e ver como cada variável mexe no resultado.

O valor calculado é um piso, não um teto

Aqui está a parte que mais confunde: esse R$ 60,60 não é o seu preço final. É o seu piso — o mínimo para não trabalhar no prejuízo. Cobrar abaixo disso significa, matematicamente, pagar para atender o cliente. Sobre esse piso é que começa a precificação de verdade:

  • Valor entregue: um trabalho que faz o cliente ganhar ou economizar muito vale mais do que as horas gastas nele;
  • Urgência: prazo apertado e fim de semana cobram um prêmio;
  • Complexidade e risco: projetos difíceis ou com escopo nebuloso pedem margem maior.

Pense no piso como o nível do mar: você nunca mergulha abaixo dele, mas navega bem acima quando o projeto justifica. Se quiser comparar esse número com o custo real de uma vaga CLT equivalente, a calculadora do valor da sua hora ajuda a enxergar o outro lado. E aquela folga que você embutiu no bruto? Se, em vez de gastá-la, você a transformar em reserva aplicada, os juros compostos fazem dela um colchão que cresce sozinho nos meses bons.

O erro que quebra freelancer

Fechar preço pela hora "cheia" e sem custos parece competitivo, mas é como vender por menos do que custa produzir. No começo dá volume; no fim do ano, você percebe que trabalhou muito e capitalizou pouco. Comece sempre pelo piso — e só desconte dele com consciência, nunca por reflexo.

Definir quanto cobrar deixa de ser chute quando você separa o que é faturável do que é trabalhado, e o que é líquido do que é bruto. O número que sai não é uma verdade absoluta, mas é um ponto de partida honesto — e partir de um piso claro já coloca você à frente da maioria.

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Perguntas frequentes

Por que não uso todas as 8 horas do dia?
Porque parte do dia é gasto com tarefas não faturáveis (vendas, administração, estudo). Cobrar só pelas horas faturáveis evita trabalhar de graça.
O que colocar em 'impostos + custos'?
Some sua carga tributária (Simples/MEI/PJ), ferramentas, contador e uma folga para férias e imprevistos. Entre 20% e 40% é comum.
Esse valor é o preço final ao cliente?
É o piso para não sair no prejuízo. Sobre ele você ainda considera valor entregue, urgência e complexidade do projeto.